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Ciências Sem Fronteira manda 6,7 mil pesquisadores brasileiros para o exterior

Mais de 6,7 mil brasileiros já foram beneficiados pelo programa Ciências Sem Fronteira, que financia estudos para pesquisadores no exterior. Os dados fazem parte de balanço, divulgado pelo ministro de Educação (MEC), Aloizio Mercadante.

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Escrito por Marcio Leal   
Qui, 12 de Maio de 2011 16:28

De acordo com o Ministério da Cultura, 50% dos recursos autorizados para captação, através de leis de incentivo, ficam nas mãos de apenas 3% dos produtores culturais que procuram patrocínio. Na ponta do acesso a atividades e bens culturais o quadro também não é dos mais animadores.

Segundo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do IPEA, de 2010, 51% dos brasileiros se auto-declaram mal situados em relação aos equipamentos culturais. O mesmo estudo dá conta de que 51,8% afirmam que os preços altos das atividades culturais dificultam o acesso à cultura e 45,5% concordam que o público freqüentador dos espaços onde há oferta de atividades culturais é elitista.

O poeta, agitador cultural e fundador da Cooperifa, Sérgio Vaz, parece ter driblado o problema da má localização dos equipamentos culturais, levando para a periferia de São Paulo um sarau que ocorre, há dez anos, dentro de um bar. Segundo ele o “boteco foi transformado em centro cultural. Afinal, o único espaço público que nos deram foi o bar”, diz. Outra característica desta iniciativa da Cooperifa é que ela não conta com nenhum tipo de financiamento permanente, seja do Estado ou de empresas. Vaz revela temer que tais apoios tragam como conseqüências a burocratização e a perda da liberdade com o que é dito nos encontros.

O sarau da Cooperifa. Foto: divulgação
O sarau da Cooperifa. Foto: divulgação

“O Sarau da Cooperifa é um movimento cultural da comunidade. Se ele começa a receber apoio, daqui a pouco vamos ter que ter presidente, vice-presidente, etc. Aí acaba perdendo sua característica de ser uma manifestação de todos. Dependendo do tipo de apoio, as conseqüências são muito mais prejudiciais do que benéficas. Vamos supor que a gente recebesse apoio do Estado. Em época de eleição ia ter político lá querendo fazer discurso e o espaço não é para isso. E nessa época os políticos costumam ficar profundamente sensibilizados com a questão da cultura”, justifica o poeta.

Para o coordenador da Crescer e Viver, organização que associa atividades circenses a conceitos pedagógicos, o ativista e produtor cultural, Junior Perim, a idéia de sugerir que as organizações “caminhem com as próprias” pernas é inexeqüível. “Nem mesmo o Estado consegue isso. Ele caminha com as pernas dos contribuintes, ou seja, tem as suas contas pagas para mediar as pressões e os interesses da sociedade, bem como produzir bens e serviços que geram o chamado bem estar social. No caso do Brasil existem segmentos da produção artística e cultural, especialmente aqueles que não têm tanto apelo comercial e midiático, para os quais o financiamento público não só cabe como é imperioso”, constata.

Economia criativa

Em janeiro, o MinC criou uma secretaria totalmente voltada para a economia criativa. Um dos objetivos do órgão é explorar o potencial da cultura para gerar valor econômico. A secretaria foi instituída para estimular a produção de bens e serviços que têm como matéria prima a criatividade: atividades que seriam capazes de gerar empregos sem a necessidade de utilização de recursos materiais esgotáveis.

Em entrevista a Folha de São Paulo, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, declarou que as leis de incentivo criam dependência entre os produtores culturais. “Os artistas vivem de elaborar ‘n’ projetos para ver em qual edital emplacar. Uma exposição que vai durar um mês e o artista fica três em pré-produção, depois em pós-produção, faz aquilo render o máximo. Isso não é profissão. A economia criativa pode preparar o ambiente para que isso flua”, disse a ministra ao diário paulista.

Junior Perim, da Crescer e Viver: "No caso do Brasil existem segmentos da produção artística e cultural, especialmente aqueles que não têm tanto apelo comercial e midiático, para os quais o financiamento público não só cabe como é imperioso"
Junior Perim, da Crescer e Viver: "No caso do Brasil existem segmentos da produção artística e cultural, especialmente aqueles que não têm tanto apelo comercial e midiático, para os quais o financiamento público não só cabe como é imperioso"

Diretor de uma instituição em grande parte financiada pelas Leis Federal e Municipal de Incentivo à Cultura, Perim defende outro conceito de economia criativa. “Nossa bilheteria não paga o custo de produção de um espetáculo e, não vai pagar nunca, mas os recursos públicos que recebemos via Leis de Incentivo geram inclusão produtiva de novos atores que formamos, dos jovens que atuam em outros elos da cadeia de produção do espetáculo e alcança outras cadeias como o comércio e indústria de tecido, o mercado fonográfico - já que fazemos trilha sonora original. A arte dialoga e impacta em outras cadeias produtivas, podendo potencializar, isso é, fazer economia criativa”, conclui.

Editais: dependência ou estímulo?

Takumã Kuikuru é cineasta, natural do Alto Xingu e já participou da filmagem de oito documentários, entre eles “Cheiro de Pequi”, que recebeu do MinC o prêmio Tuxáua Cultura Viva do ano passado, por sua atuação na formação de cineastas indígenas. Kuikuru se diz bastante decepcionado com o Ministério, pois até hoje não recebeu nenhum retorno sobre o prêmio. “Dessa forma, como ficam as produções? Surge uma sensação de desânimo, descrença por parte de quem faz”, desabafa.

Mesmo assim, Kuikuru acredita que os editais públicos têm sido as grandes oportunidades de realização de seus projetos. “É uma coisa muito legal que participemos de editais abertos para todos, sem classificação das etnias. São brancos, negros, amarelos, quem quiser. Dessa forma, já produzimos oito filmes sobre patrimônio material e imaterial. Todos financiados por esses editais. Ninguém nos ajuda porque somos índios, concorremos de igual pra igual com todo mundo”, revela o cineasta.

Há, de outro lado, trabalhadores da área cultural menos satisfeitos com a política dos editais do que Kuikuru. São freqüentes as queixas relacionadas ao financiamento de projetos, sobretudo, no que diz respeito a necessidade de atendimento em grande escala como requisito básico para a boa avaliação das atividades. “Todo mundo é incentivado a produzir e criar em profusão e ter como resultado ações com muitos beneficiários. A principal conseqüência disso, sobretudo no campo das artes, é uma cena pouco qualificada”, reclama Perim. Ele afirma que esse tipo de prática acabou colocando os Pontos de Cultura em uma posição frágil.

Takumã Kuikuru o cineasta do Alto Xingu
Takumã Kuikuru o cineasta do Alto Xingu

O poeta Sérgio Vaz, também aponta algumas lacunas no modo como o Estado e outros financiadores selecionam os projetos a serem apoiados. Na sua opinião, seria mais proveitoso que os financiadores tentassem descobrir quem já trabalha na área cultural em diferentes localidades para depois conceder algum tipo de apoio. “Quando a pessoa pega dinheiro para depois virar ponto de cultura é preocupante. Primeiro a grana e depois vai criar cultura? Eu acho que o Estado deveria primeiro reconhecer as pessoas que já fazem cultura, que já estão promovendo a cultura sem ajuda financeira e depois apóia-las. Porque o cara sabe escrever um projeto, coloca uma pastinha embaixo do braço e aprova seu projeto. Agora, e o cara que é semi-analfabeto?, questiona o fundador da Cooperifa.

As opiniões de Perim, Vaz e Kuikuro, embora sejam sobre diferentes facetas das políticas culturais, convergem quando o assunto é o papel fundamental dos editais públicos no estímulo à produção de cultura. Mesmo Vaz, que se recusa a receber financiamento para realizar o sarau da Cooperifa, reconhece a importância dos editais no impulso de atividades culturais. “Não nos achamos melhores que as pessoas que recebem qualquer tipo de apoio. É apenas um jeito diferente de se trabalhar com cultura. Tem pessoas que recebem apoio e fazem trabalhos maravilhosos”, explica o poeta.

Fonte: Observatório de Favelas, em 11/05/2011

 
 
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