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Prévia do PIB: crescimento da economia em junho é o maior em 14 meses

A economia brasileira cresceu mais do que o esperado em junho, indicando que a atividade já estava dando sinais de recuperação. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma espécie de prévia do Produto Interno Bruto (PIB), subiu 0,75% em junho frente a maio. É a maior elevação mensal desde março de 2011 (quando a expansão ficou em 1,47%).

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Lula, na nuvem PDF Imprimir E-mail
Escrito por Marcio Leal   
Qui, 13 de Setembro de 2012 22:42

Uma nuvem humana acompanha Luiz Inácio Lula da Silva quando ele se locomove. Por vezes, a bruma se adensa, pulsa e canta, emocionada: “Lula, Lula, olê olê olê olá”. O cordão humano abraça também o candidato a prefeito de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad, que vem logo atrás dele, rumo ao palanque.

A quadra do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, no centro da capital, sedia nessa terça-feira, 11 de setembro, um encontro – aberto – entre Lula, Haddad, sindicalistas e quem quiser chegar. Repórter especializado em música há 18 anos, já orbitei em tempestades pop nacionais (Racionais MC’s) e internacionais (Rolling Stones), mas nunca vi tamanho furor ao redor de um pop star como vejo nesse meu primeiro encontro com este ex-presidente do Brasil.

À custa de política (e não de entretenimento), Lula atiça gritos, choros, suspiros, mãos e corpos estendidos para alcança-lo, câmeras filmadoras e fotográficas doidas por devassá-lo, tumulto, tremedeira, alvoroço, corre-corre. Por onde o bloco maciço de gente passa, o caminho fica apertado e abafado para Lula, apesar de ele ter todo o espaço do mundo para se mover.

Logo no início de seu discurso, o ex-líder sindical sentado à mesa da plenária com os sindicalistas traz a eufórica plateia petista para perto de si citando o câncer e a luta contra o câncer, a fragilidade da garganta (“não vou poder me esgoelar como me esgoelava no passado”), a necessidade de preservar a voz. “Eu costumava falar de pé, do lado de lá da mesa – até estava pedindo pra Fernando Haddad ir pra frente da mesa quando for falar -, mas é que preciso ficar com um copinho d’água do lado. Toda hora eu tenho que dar uma bicadinha na água, porque a garaganta não tá boa. Quando era dirigente sindical, eu dava uma bicadinha noutra coisa”, solda a empatia, sob gargalhadas gerais.

Sentada ao lado dele à mesa, a candidata a vice-prefeita com Haddad, Nádia Campeão (PCdoB), cuida de manter o copo de Lula cheio até aqui de água. Ele se empolga com a própria oratória e, mesmo sentado, logo se esquece de dar as prometidas bicadas. “Toma água!”, alerta um espectador. “Obrigado, querido”, Lula retribui o afago – e beberica.

Em sua narrativa, entrelaça as razões da escolha por Haddad às razões da escolha anterior por Dilma Rousseff, sua sucessora na presidência. Faz elogios rasgados ao candidato enquanto lhe dá puxões de orelha leves, zombeteiros. “Não pensem que foi uma tarefa fácil”, cutuca, referindo-se ao processo de convencer PT e aliados a aceitar o candidato Haddad. E prossegue dirigindo-se diretamente a seu ex-ministro da Educação. “Eu vou lhe dizer uma coisa que muita gente dizia pra mim: ‘Ô, Lula, o Haddad nem cumprimenta a gente’. Eu dizia: ‘É que ele tem vergonha. Ele é tímido. Ele não tá habituado’. A Dilma também era assim. Eu ia visitar obra com a Dilma pelo Brasil afora, eu abraçava todo mundo, e a Dilma lá no canto. Eu dizia; ‘Dilma, abraça! Aperta! Aperta!’. E ela começou a abraçar e apertar. E gostou. E este aqui vai gostar muito mais.”

A plateia se diverte, e ele emenda com conselhos diretos ao mais novo novato petista nos palanques. “Mas é pra apertar, é pra abraçar, com o mesmo carinho e do mesmo jeito homem e mulher. Não é pra ter diferença no abraço, não, até porque a chefa tá aí do lado”, Lula diz, chamando atenção para a esposa de Fernando, Ana Estela Haddad (foto acima). “Não sei se vocês sabem, o ProUni foi um pouco ideia desta mulher”, afirma, apontando pafra Ana Estela e colocando-a no coração da campanha pela prefeitura de São Paulo. ”Ela levou, no meu governo, pra um outro ministro da Educação, que entendeu que era preciso pensar, mas saiu do ministério, e não pensou.”

Fernando recebe tanto os elogios quanto as provocações com o mesmo olhar agradecido e afetuoso, de quem está diante de um pai. Os olhares amorosos entre os Haddad se estendem a Lula. Frederico (foto acima), o filho mais velho, de 20 anos, estudante de direito na USP, sorri de orelha a orelha na plateia, diante das palavras do ex-presidente – que, ali em cima, afaga os eleitores jovens, sabedor de que estes, ao chegar à universidade com auxílio de programas como o ProUni, tornam-se formadores de opinião e consolidam votos de suas famílias.

O fio narrativo familiar (que talvez conte com Dilma como mãe exigente) é aproveitado imediatamente por Lula, que incorpora cada brasileira e cada brasileiro à família simbólica que quer narrar: “Eu achava que nós precisávamos construir uma candidatura nova para São Paulo, de alguém que nunca tivesse disputado, mas que tivesse compromisso com o partido, com movimento social e sindical, com aqueles que moram na rua, que catam papel”. É o momento de ele se exaltar e testar a potência da voz. “Nós estamos cansados de ver pessoas durante a campanha tratarem o pobre como se ele fosse rei e depois das eleições tratarem o pobre como se ele fosse bandido aqui nesta cidade”, endurece. Previamente conquistada, a plateira urra e delira de fato.

Lula não é simplesmente retórico. A colmeia humana que o acompanha para lá e para cá se parece com o Brasil. É múltipla e plural em sentidos racial, étnico, etário, socioeconômico. Seja junto ao povo ou nas áreas tidas como “vip”, o enxame que se forma a seu redor é tudo, menos homogêneo. Há Frederico e há Zilah Abramo, 85 anos, fundadora do PT. Há senhoras negras que tentam vaga ao lado do ex-presidente-retirante nordestino-operário e meninos brancos de dez anos que gritam “Lula, eu sou seu fã!”. Diferente do chuvisco monocromático da São Paulo dos Jardins e de Higienópolis, a nuvem de Lula é uma democracia – sofrida, levada no empurra-empurra, mas uma democracia.

Na hora de discursar, Fernando atende ao pedido do padrinho político: vai para a boca do palco, e leva Ana Estela consigo. O filho Frederico, aqui embaixo, abre o sorrisão mais uma vez. Haddad pai discursa: ”A nossa encomenda não é ganhar a eleição, é ganhar o coração desta cidade, com um projeto generoso, tolerante, que combate a desigualdade, mas celebra a diferença – a diferença de negros e brancos, de mulheres e homens, de religiões, orientação sexual, perspectiva, visão de mundo”.

Na mesma sentença, devota cuidado retórico e olhar apaixonado a Lula, enquanto direciona mira aos adversários do PRB, Celso Russomanno, e do PSDB, José Serra: ”Eu tenho muitos padrinhos poderosos. Repito, tenho padrinhos poderosos. São aqueles que organizaram os sindicados, os partidos progressistas, os catadores de material reciclável, os movimentos de moradia, das favelas. Tenho origem, há quase 30 anos sou filiado ao PT. Nunca pulei de galho em galho. Na hora da tristeza e na hora da alegria, da crise e da comemoração, eu fiquei do mesmo lado, e vou ficar do mesmo lado até o fim da minha vida. Nós todos aqui temos os mesmos padrinhos e madrinhas: é o povo que organizou a sociedade brasileira para mudar para melhor, o povo que recusou a senzala, a escravidão, que combateu o trabalho escravo, o preconceito contra o trabalhador, o migrante, a mulher, o negro”.

Despedidas feitas, Lula puxa Fernando para descer com ele pela frente e se juntar aos militantes que assistiram à plenária. O mestre desconhece saídas pelos fundos, e o aprendiz toma lições vivas de contato íntimo e profundo com os cidadãos.

O ato termina. O público embandeirado se dispersa. A nuvem persevera, agora pairando ao redor da saleta onde Lula se refugia. Abrindo caminho com delicadeza entre fãs e seguranças, Frederico leva um amigo para dentro da saleta – o rapaz faz aniversário hoje, 11 de setembro, e quer de presente uma foto com o ídolo. Sai um minuto depois, exultante. Passam-se mais minutos, Lula não sai, a nuvem não chove. Todo mundo espera, com paciência.

Lula finalmente se prepara para ir embora. Tira fotos, posa, sorri, abraça, beija. Anda devagar, um passo por vez dentro da neblina de carnes e ossos. Um rapaz negro vestido de verde-e-amarelo escala os degraus que pode para fotografar a cena do alto. “Deixa o homem descansar!”, uma admiradora afofa a nuvem com carinho e preocupação. Os seguranças empurram o homem adiante, como a querer apressá-lo e poupá-lo do desgaste. Ele, parece feliz feito pinto no lixo, exibe pressa nenhuma em vencer os poucos metros que o separam da condução para ir embora. Reconhece um companheiro que acena mais à distância, contraria os seguranças, volta atrás, cumprimenta, conversa. O carro preto se vai, e a nuvem ainda tarda a se dissipar.

Uma última observação, de quem também custa a se desprender da nebulosa: Lula, duplipensante pela própria natureza, começou seu discurso falando em preservar a garganta – e discursa por 24 minutos cravados. Menos de três minutos depois do aviso, revela que estará com Haddad em dois novos comícios, no extremo sul da cidade, neste sábado, 15 de setembro: no Capão Redondo, às 17h, e no Grajaú, às 19h. Irá com Haddad, pela primeira vez na campanha, à periferia, habitat pelo qual passeia com desenvoltura. Entre o centro e a periferia, a nuvem se move velozmente – e, quando fala, todo mundo para para ouvir.

Fonte: Blog H, em 12/09/2012

 

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